Quando o show no porão vira passarela, e o rosto do seu artista favorito aparece em uma falsificação da Balenciaga.
Antes era simples.
Se alguém aparecesse num show com roupas de grife, você sabia que ou estava perdido ou prestes a levar uma joelhada na canela durante o segundo refrão.
Agora? Agora o baterista está vestindo Margiela. A garota do merch está com Comme des Garçons. E aquele cara na primeira fila, gritando cada letra do EP DIY que você ajudou a mixar numa garagem? Ele está vestido como um mapa de assentos da Paris Fashion Week.
O que diabos aconteceu?
De Fita Adesiva a Estilo
Teve uma época em que parecer um desastre fazia parte da identidade. Flanelas largas demais. Tênis surrados. Uma bolsa que carregou três laptops, dois pacotes de cordas e um coração partido. Era assim que você sabia que alguém levava a sério.
Agora?
Você abre o Instagram e o mesmo garoto está da cabeça aos pés de Rick Owens, posando como se tivesse pago R$ 4.400 para parecer que sobreviveu a um incêndio num galpão, não que tocou em um.
Quando a Garra vira Moeda Estética
Olha, era inevitável. O cool se devora. E nada é mais cool do que quem não liga para ser cool — por isso a moda sempre acaba correndo atrás dos jovens que só tentavam pagar o aluguel vendendo zines e fitas de noise no porta-malas.
Mas agora o caminho é assustadoramente rápido.
Uma semana você tem 19 anos, soltando emo-rap distorcido no SoundCloud com uma foto de perfil que é um JPEG de uma TV CRT quebrada. Dois meses depois você está modelando para Acne Studios, e a GQ te chama de “a voz do descontentamento da Geração Z com o capitalismo moderno.”
Você ainda mora com sua tia.
Uma Breve Lista do Que as Marcas de Moda Roubaram da Cena
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A estética suja dos flyers de clube (você sabe qual: fontes ruins, espaçamento pior ainda, de alguma forma icônico).
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Camisetas de banda tão obscuras que nem a mãe do vocalista comprou uma.
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Alfinetes de segurança como joias statement (Vivienne Westwood está gritando do túmulo).
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Moletons desgastados que parecem ter sido deixados numa van de turnê durante uma onda de calor — por R$ 6.600.
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A cara que você fazia quando estava quebrado, de ressaca e tentando chegar no soundcheck das 14h — agora chamado de “streetwear desconstruído.”
Eles Levaram o Ruído e Deixaram o Feedback
Aqui está o golpe final: metade desses jovens da passarela não conseguiria citar uma única faixa dos artistas estampados na camiseta. Eles não conhecem a banda, o local, a turnê de onde veio aquela camiseta. Nunca foram atingidos por um microfone de caixa que caiu no meio do show.
Eles estão vestindo sua cena como se fosse um filtro.
Eles acham que D-beat é um lançamento de tênis.
Mas Aqui Está a Reviravolta: Talvez Estejamos No Jogo Agora
Porque alguns desses jovens do SoundCloud? Eles gostam disso. Estão usando a plataforma, a imprensa, a jaqueta Balenciaga grátis para financiar o próximo 12 polegadas. Estão levando a turma para Paris. Estão citando sua gravadora de noise favorita no meio da entrevista.
E, sinceramente? Respeito.
Se os abutres da moda vão se banquetear, que paguem pelo privilégio. Venda a atitude para eles. Mantenha a alma.
E quando a hype passar?
Você ainda será quem consegue lotar um espaço para 200 pessoas numa terça-feira à noite, vestindo jeans remendados por você mesmo e um moletom da última banda que abriu o show.
Continue Feio, Continue Barulhento
Deixe que eles usem Prada.
Nós usaremos manchas de cerveja, letras inacabadas e patches de bandas que não têm página no Spotify.
E ainda vamos parecer melhores — porque a gente leva a sério.
A moda só está brincando de se vestir.
Nós nascemos assim.
Levi Torres começou rastreando discos punk com equipamentos de brechó e nunca perdeu seu espírito DIY. Agora baseado em Oakland, ele cobre equipamentos acessíveis, hardware hackeável e as ferramentas que músicos de verdade realmente usam. Levi acredita que o melhor setup é aquele que faz você tocar.
Escrito por Levi Torres
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